Condições para a Recordação de Existências Passadas
Em relação às condições de vida que poderiam auxiliar para o melhor êxito na evocação de existências passadas, é evidente que mesmo o mais treinado espiritualista terá pouco êxito na evocação do seu passado encarnatório se a sua memória ainda for tão falha que mal consiga recordar-se do almoço ingerido no dia anterior.
Estabelecida a premissa de que a criatura é sempre fruto de suas próprias obras, só podem oferecer as melhores probabilidades para a recordação do perispírito:
- o desenvolvimento das forças mentais;
- a emancipação da vontade;
- o serviço evangélico sem condições.
O despertamento da memória etéreo-astral pregressa, quando o espírito ainda se encontra submerso na carne, requer muitos sacrifícios íntimos e exige muitas renovações espirituais, coisa para com a qual a maioria dos homens atuais não sente simpatia, nem têm qualquer disposição heróica.
A própria nutrição carnívora, que os terrícolas efetuam com os detestáveis repastos de carne do animal sacrificado, sobrecarrega o perispírito com a carga danosa das gorduras astrais. Isso não só obscurece a nitidez da memória etérica, como ainda a impede de repercutir favoravelmente sobre a massa cinzenta do cérebro carnal.
Ademais, também não devem esperar muito sucesso na evocação do seu passado reencarnatório aqueles que, além de viverem saturados de substâncias albuminóides e uréicas das vísceras animais, ainda se enfartam de bebidas alcoólicas ou se intoxicam com a nicotina do cigarro ou com alcalóides perigosos, ou os que embotam a sua sensibilidade psíquica pelo uso excessivo de barbitúricos e anestésicos, usados fartamente a fim de fugirem da mais diminuta advertência de sofrimento.
Em geral, a criatura terrena pratica incessante agressão à delicadeza das suas fibras nervosas, pois se habitua a cultivar justamente o que é pernicioso à sutileza vibratória do seu perispírito.
Mesmo o valioso sistema de “chacras etéricos”, que é o intermediário entre as relações mais importantes do perispírito e do corpo físico, mal consegue manter o seu movimento vibratório e a sua luz mortiça, em face do fustigamento contínuo que recebe das paixões animais. Conseqüentemente, avolumam-se as dificuldades para o espírito recordar o seu passado, assim como não seria possível a clareza do dia se revelar num espelho coberto de pó, ou então a luz do luar refletir-se num lago de lama revolvida.
Há criaturas que não gozam de boa reputação espiritual e que, no entanto, manifestam faculdades extraordinárias, podendo até mesmo identificar vidas passadas de outras criaturas, enquanto, em sentido oposto, outras criaturas boníssimas mal conseguem recordar dos seus próprios sonhos.
Enquanto Francisco de Assis, por exemplo, revelava poderosas faculdades em sua vida sacrificial, como emissário da angelitude, e sua alma límpida refletia até a consciência de Jesus, já o diabólico Rasputin, embora fosse um ser tenebroso, a serviço das trevas, que materializava na Terra a vontade e o poder satânico para objetivos perniciosos, também gozava de poderes ocultos, que abalaram uma nação e contribuíram para o extermínio cármico da aristocracia russa.
Uma vez que na Terra ainda predominam o tipo de espíritos inferiores encarnados, é óbvio que se trata de um planeta onde o mal predomina sobre o bem; em conseqüência, sempre logram maior sucesso as realizações que se afinam à natureza agressiva e grosseira, própria do plano material, assim como os arbustos inúteis ou venenosos vingam melhor no clima deletério das zonas pantanosas, enquanto as ervas balsâmicas e as flores odorantes enfrentam maiores dificuldades para sobreviver, mesmo no solo adubado.
Mas, de acordo com essas mesmas disposições provindas das leis superiores da natureza, também o arbusto tóxico, que prolifera fartamente no lodo, morre com mais facilidade no clima elevado dos Alpes.
Inúmeros magos do passado, que desenvolveram suas forças e faculdades ocultas sob tenazes exercícios de penetração no mundo astral inferior, têm o direito de usufruir o fruto de suas realizações penosas, mesmo quando sejam malignos os seus objetivos.
Embora, no futuro, devam ser responsáveis por todos os desatinos e prejuízos que praticaram pela subversão das energias perigosas, é evidente que sempre se trata de uma conquista pessoal, malgrado a cultivem sob o comando diabólico.
Trata-se de almas tenazes e egocêntricas, que atuam com vigor no subterrâneo das paixões perigosas e visam obter a glória e o poder, que idolatram no mundo material; mas, de acordo com a lei de que “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”, elas terão que pagar até o último ceitil o resultado de todos os sofrimentos e torpezas que semearam na crosta terráquea.
Não os favorecerão os poderes efêmeros que movimentaram na transitoriedade da carne, pois no Além-Túmulo não poderão fugir dos efeitos torturantes, que são próprios das forças satânicas, que operam como perigosa espada de dois gumes.
Conforme ensinam as obras ocultistas, através do desenvolvimento disciplinado dos chacras etéricos, em sincronia com o despertamento do fogo kundalíneo, que serpenteia pela medula perispiritual, podem se manifestar poderes extraterrenos nas almas persistentes, perseverantes e tenazes.
No entanto, qualquer descontrole mental ou emotivo, pernicioso, pode levá-las a produzirem danos e calamidades alheias quando, por lei sideral, as mesmas forças desencadeadas pela dinâmica do desejo ou do pensamento imprudente se voltam, depois, terrivelmente, contra os seus próprios agentes desarvorados.
A hipersensibilização do perispírito, através da técnica ocultista, pode muito bem favorecer a focalização de alguns quadros das vidas pregressas, sem que por isso se comprove a existência de atributos angélicos na criatura interessada.
É bem possível que, de posse de tais poderes extemporâneos, em vez de júbilo próprio do reino do Cristo, o homem ainda venha a provocar maior exaltação de sua personalidade humana, glorificando-se apenas pelo uso dessas energias agressivas do psiquismo inferior.
Qualquer homem pode exercitar-se no uso desses poderes excepcionais, pois que para isso existem técnicas e roteiros esotéricos eficientes, que dependem mais da tenacidade e da vontade disciplinada dos interessados, que é muito mais dificultosa porque, de início, exige uma renúncia completa como condição primordial do êxito.
Quanto, porém, aos objetivos com que forem aplicados tais poderes, isso já é problema de foro íntimo e de responsabilidade pessoal no curso da colheita cármica.