A Antiguidade dos Fenômenos Mediúnicos
A história da paranormalidade pertence à própria história da humanidade, pois em todas as épocas as faculdades paranormais do homem, registradas pela História, tiveram vigência e se apresentaram de forma significativa, estabelecendo a linha direcional do comportamento da sociedade, na busca do seu progresso e da sua afirmação.
A faculdade mediúnica, apesar de parecer ter atingido seu clímax nos dias atuais, sempre existiu desde o surgimento do homem na face da Terra, porque se trata de uma faculdade inerente ao seu espírito, e não oriunda da matéria.
A mediunidade, como fenômeno peculiar ao ser humano, portanto, existe desde quando a primeira criatura surgiu na Terra, porque o primeiro homem também era um espírito encarnado; naturalmente, a sua manifestação mais nítida dependeu do apuro dos centros nervosos de seu corpo físico e do aguçamento da sensibilidade dos seus sentidos.
Ao longo de seu processo evolutivo, o homem primitivo se transformou num instrumento que, pouco a pouco, apurou as suas faculdades, que o ajustaram para servir de traço de união, de instrumento de ligação, entre o mundo oculto e o mundo das formas, pois é evidente que a sensibilização do seu sistema nervoso contribuiu para que as entidades do mundo invisível o utilizassem como veículo de intercâmbio entre esses dois planos cósmicos.
A humanidade tem sido guiada, desde sua origem, por leis do mundo oculto, já comprovadas na face do orbe, graças à faculdade mediúnica, inata no primeiro espírito aqui encarnado. Embora as criaturas o ignorem, o seu próprio aperfeiçoamento psicofísico ao longo da história dependeu muitíssimo da assistência e da pedagogia proveniente do mundo espiritual, e foi justamente através da faculdade mediúnica que os espíritos diretores da humanidade puderam intervir no seu processo evolutivo, orientando-o e transferindo para os homens os conhecimentos necessários ao seu progresso.
Apesar do fenômeno mediúnico constituir manifestação intrínseca do mundo espiritual invisível, ele sempre se manifestou entre os homens de acordo com a sua sensibilidade, cultura, moral, capacidade nervosa, e em função da dependência de compromissos previamente assumidos pelos médiuns no mundo oculto, antes de se encarnarem.
1.1 A Mediunidade nos Primórdios da Civilização
As manifestações mediúnicas nos primórdios da civilização humana não eram muito bem conhecidas e tampouco generalizadas, tal como se verifica na atualidade, mas, nem por isso, deixaram de ser admitidas pelos povos antigos, que, dentro de suas limitadas possibilidades, as praticaram, estudaram e utilizaram em benefício individual e coletivo.
Os fenômenos mediúnicos, atualmente um dos fundamentos do Espiritismo (ou seja, a possibilidade das comunicações entre os “vivos” e os “mortos”), no passado remoto eram tidos como maravilhosos, sobrenaturais, sob a feição fantasiosa dos milagres que lhe eram atribuídos, em razão do desconhecimento das leis que os regem, e os indivíduos que podiam manter o intercâmbio com o mundo invisível eram considerados privilegiados.
Curiosamente, a mediunidade, enquanto faculdade extrasensorial, quase não se modificou com o passar dos milênios, mantendo praticamente inalterados os seus diversos aspectos e pouco variando as suas manifestações, pois os bons médiuns de hoje dominam os mesmos fenômenos que antigamente exaltavam os profetas, os oráculos, as pitonisas, os astrólogos, as sibilas e os magos, o que demonstra a lentidão da ascensão espiritual do homem nesse terreno.
Ao se interrogar os Vedas da Índia, os templos do Egito, os mistérios da Grécia, os recintos de pedra da Gália, os livros sagrados de todos os povos por toda parte, nos documentos escritos, nos monumentos e nas tradições antigas da humanidade, se encontra a crença universal nas manifestações das almas libertas de seus corpos terrestres, associadas de um modo íntimo e constante à evolução das raças humanas, a tal ponto que se tornaram inseparáveis da História, e que têm permanecido através das vicissitudes dos tempos.
Essas manifestações mediúnicas surgiram como conseqüência do culto dos antepassados entre os povos primitivos, nas homenagens prestadas aos manes (“espíritos”) dos heróis e, nos lares, aos gênios tutelares da família, que lhes erigiam altares e dirigiam evocações, culto que foi posteriormente estendido a todas as almas amadas, ao esposo, ao filho, ao amigo falecido.
Nos primórdios das civilizações antigas da humanidade, as sombras dos mortos sempre se misturaram com os vivos, quer em vigília durante as manifestações mediúnicas, quer durante o sono, revelando o futuro, aparecendo nas materializações de fantasmas ou através da telepatia, da premonição, da psicografia, de forma abundante, pois em toda a parte e em todos os tempos a vida interrogou a morte, e dela obteve respostas.
Sem dúvida, os abusos, as superstições pueris, os sacrifícios supérfluos se misturaram com o culto das almas invisíveis, mas esse íntimo intercâmbio propiciava aos homens que haurissem novas forças, pois sabiam poder contar com a presença e o amparo dos seus antepassados amados, e esta certeza os tornou mais firmes em suas provações, aprendendo a não mais temer a morte. Com isso os laços de família se fortaleceram intimamente, principalmente no Oriente.
Na China, na Índia e no território céltico havia reuniões, em dias fixos, na “câmara dos antepassados”, com a presença de numerosos médiuns de fé ardente e com faculdades paranormais poderosas e variadas, onde os fenômenos obtidos ultrapassavam em intensidade tudo aquilo que se pode observar atualmente.
1.2 A Presença de Fenômenos Mediúnicos nas Tradições Folclóricas e Religiosas dos Povos da Antiguidade
A humanidade tem sido dirigida, desde sua origem, por leis do mundo oculto, que atuam com profunda influência nas criaturas, pois todas as suas histórias, lendas e narrativas de tradição milenária estão repletas de acontecimentos, revelações, fenômenos e manifestações extrafísicas que confirmam a existência da mediunidade entre os homens das raças mais primitivas.
A história das religiões desses povos é caracterizada pela presença dos chamados demônios, gênios e deuses, sempre por trás de fenômenos sobrenaturais, hoje entendidos como da esfera mediúnica; nada mais do que espíritos desencarnados a se manifestarem entre os chamados “vivos”, através da faculdade da mediunidade em seus múltiplos aspectos.
Qualquer tribo, clã, raça ou povo ou mesmo civilização, do presente ou do passado, ainda conserva em seu folclore a tradição vivida por magos, fadas, gnomos, duendes, silfos, bruxas, ondinas, nereidas, salamandras, ou seres exóticos, que se divertiam no mundo invisível, tanto ajudando quanto hostilizando a vida dos homens encarnados.
As civilizações do passado, como as da Atlântida, Lemúria, China, Índia, Hebréia, Egito, Persa, Caldéia, Cartago, Assíria, Babilônia, Grécia, Germânia, Escandinávia ou da Arábia, comprovam, pela história, pelas lendas e pelo seu folclore, que os fenômenos mediúnicos surgiram em todos os recantos do orbe terráqueo quase ao mesmo tempo e sem privilégios especiais, manifestando-se igualmente em todos os agrupamentos humanos.
Por exemplo, a versão suméria do Dilúvio conta que, cheios de inveja do homem, os deuses resolveram destruir completamente a raça dos mortais, afogando-os impiedosamente. Um deles, no entanto, revelou o segredo a um habitante da Terra, seu favorito, ensinando-lhe a construir uma arca para a sua salvação e da sua espécie quando da inundação, que imperou durante sete dias seguidos até que toda a superfície ficou coberta pela água.
Finalmente, quando o turbilhão sossegou e as águas baixaram, o homem favorito e seus irmãos saíram da arca e ofereceram um sacrifício aos deuses em ação de graças. Esfomeados, devido à longa privação dos alimentos, os deuses “aspiraram o doce cheiro e se juntaram como moscas sobre o sacrifício”, segundo a narrativa, decidindo nunca mais tentarem a destruição do homem, revelando assim se tratarem de espíritos desencarnados, ávidos das emanações etéricas do animal sacrificado, num processo atualmente designado por “vampirismo”.
Os fenômenos mediúnicos são comuns a todas as raças terrícolas. A fenomenologia mediúnica tem sido acontecimento comprovado por todos os povos e civilizações e ficou evidenciada até mesmo nos objetos e nos propósitos guerreiros desses povos primitivos, tendo-os influenciado seriamente, embora velada pelo simbolismo das tradições lendárias. Comprova-se isto pela sua história, lendas ou pelo seu folclore.
Os escandinavos, principalmente os “vikings”, narram seus encontros com bruxas, sereias e entidades fascinadoras, que surgiam das brumas misteriosas, perseguindo-os durante as noites de lua cheia.
As histórias e as lendas musicadas por Wagner em suas peças sinfônicas ou óperas magistrais, confirmam o espírito de religiosidade e a crença no mundo invisível por parte dos povos germânicos e anglo-saxãos. Eles rendiam sua homenagem aos deuses, numes, gênios e os consideravam habitantes de um mundo estranho, muito diferente do que é habitado pelos homens.
As próprias lendas brasileiras são também férteis de fenômenos mediúnicos. No cenário das matas enluaradas surge o “boitatá” lançando fogo pelas narinas; nas encruzilhadas escuras aparece o fantasmagórico “saci-pererê”, saltitando numa perna só e despedindo fulgores dos olhos embraseados; na pradaria sem fim, corre loucamente a “mula-sem-cabeça”, ou na penumbra das madrugadas nevoentas, os mais crédulos dizem ouvir os gemidos tristes da alma do “negrinho do pastoreio”.
Nas épocas em que a humanidade viveu sob regime patriarcal, circunscrito a clãs ou tribos, a mediunidade era atribuída a poucos, que exerciam um verdadeiro reinado espiritual sobre os demais, em conseqüência do exercício dos seus supostos “poderes mágicos”, geralmente atribuídos a origem divina ou sobrenatural.
As práticas mediúnicas se transferiram posteriormente para os círculos fechados dos colégios sacerdotais formados por castas privilegiadas de inspirados e, aos poucos, foram se difundindo entre o povo, dando nascimento aos videntes, profetas, adivinhos e pitonisas que, por sua vez, passaram a exercer inegável influência nos meios em que atuaram.
No passado, a comunhão com as almas dos mortos foi, sobretudo, privilégio dos santuários, preocupação de alguns limitados grupos de iniciados. Fora desses círculos esclarecidos, asilos da verdadeira sabedoria antiga, as manifestações de além-túmulo eram, muitas vezes, consideradas sobrenaturais e associadas a práticas supersticiosas que lhes deturpavam o sentido. Ao homem comum, ignorante das leis da Vida e da Natureza, era vedado aprender os ensinamentos que se ocultavam sob os fenômenos mediúnicos.
1.3 A Mediunidade na História Secreta das Religiões Antigas
A história religiosa dos povos da antiguidade mostra que, desde épocas remotíssimas na História, a evocação de espíritos dos “mortos” era praticada por categorias de homens que faziam disso sua especialidade.
Desde os escritos religiosos mais antigos, como os Vedas (cerca de 5.000 a.C.), já se tem notícia do intercâmbio espiritual com os chamados “mortos”.
Tal atividade, porém, era somente exercida por homens e mulheres dedicados especialmente ao mister religioso, eram os “iniciados”, que às vezes levavam dezenas de anos se preparando para poderem, depois de desenvolvidas as suas faculdades mediúnicas, exercitar o seu poder sobre o povo e seus governantes, sendo, por isso, pessoas temidas e respeitadas por todos, pois formavam os círculos sacerdotais responsáveis pela orientação da massa.
Contrariamente ao que ocorre hoje em dia entre os praticantes do Espiritismo, por exemplo, as atividades que possibilitavam entrar-se em contato com as almas desencarnadas eram apanágio exclusivo da classe sacerdotal, que monopolizara essas cerimônias, não só para delas fazerem fonte lucrativa de renda, mantendo o povo em absoluta ignorância quanto ao verdadeiro estado da alma depois da morte, como também para revestirem, aos seus olhos, um caráter sagrado, dado que somente eles detinham os segredos da morte.
Com o passar do tempo, e em conseqüência das guerras e invasões que forçaram parte da população primitiva hindu a emigrar, o segredo das evocações dos espíritos dos mortos nas práticas mediúnicas se espalhou em toda a Ásia, encontrando-se posteriormente entre os egípcios e ainda entre os hebreus, essa tradição proveniente da Índia.
Nas antigas civilizações de expressão, como as do Egito, da Grécia, da Pérsia ou em Roma, o mediunismo passou então a ser utilizado como fonte de poder e de dominação, razão porque era concedido somente a poucos indivíduos, sob as mais rigorosas condições de mistério e formalismo, dando nascimento a seitas e fraternidades que funcionavam baseadas em longas e difíceis iniciações, cujo objetivo era estabelecer um certo espírito de disciplina e seleção.
A mediunidade passou, assim, a exercer papel preponderante sobre a administração pública e na vida política das nações de então, pois os seus dirigentes jamais aventuravam qualquer passo importante sem prévia consulta aos oráculos, astrólogos e videntes. Mesmo na Roma imperial, caracterizada pela visceral amoralidade, os Césares não dispensavam essas consultas, submetendo-se de bom grado às inspirações e conselhos dos “deuses”.
Todas as formas materiais exteriores, as cerimônias extravagantes dos cultos das religiões desaparecidas, das crenças extintas, que se realizavam nos templos e criptas sagrados, tinham por fim chocar a imaginação do povo, sob o qual fora estendido um “véu exterior e brilhante”, com a intenção de ocultar das massas os grandes mistérios das realidades do mundo espiritual.
Por trás desses véus, as religiões antigas apareciam sob aspecto diverso, revestindo-se de caráter grave e elevado, simultaneamente científico e filosófico. Seu ensino era duplo: de um lado, exterior e público, propagando os ensinamentos ditos “exotéricos”, a saber, as informações e instruções liberadas aos leigos ou profanos; de outro lado era interior e secreto, reservando os ensinamentos e conhecimentos “esotéricos” somente aos iniciados nos antigos mistérios.
Um exemplo disso foi a transmissão de conhecimentos sobre Magia, entendida como arte de empregar conscientemente poderes invisíveis para obter efeitos visíveis. Tais recursos, empregados para fins benéficos, significam “magia branca”, mas quem os empregar para o mal então pratica “magia negra”.
Em conseqüência, desde a antiguidade das civilizações existiram homens poderosos que desenvolveram suas forças ocultas e as empregaram na magia branca, a serviço do próximo, enquanto os malfeitores praticaram a magia negra visando aos seus exclusivos interesses e domínio nefandos.
Para evitar que esses conhecimentos ocultos fossem franqueados a criaturas mal intencionadas ou despreparadas, que deles fariam mau uso, eles foram revestidos de símbolos e alegorias inofensivas, e ocultos na liturgia e alegoria religiosas.
Todas as grandes religiões do passado tiveram, portanto, duas faces: uma aparente, a “forma ou a letra”, e outra oculta, encerrando o seu “espírito”. O Bramanismo na Índia, o Hermetismo no Egito, o Politeísmo na Grécia, e o próprio Cristianismo em suas origens apresentaram esse duplo aspecto.
Seus adeptos eram escolhidos, preparados desde a infância para a carreira que deveriam preencher e depois eram gradualmente levados à plenitude intelectual, de onde podiam dominar e julgar a vida. Os princípios da ciência secreta lhes eram comunicados na proporção relativa ao desenvolvimento de suas inteligências e qualidades morais.
O processo de iniciação, no lado oculto das religiões antigas, constituía para os seus adeptos uma refundição completa do caráter e um acordar das faculdades latentes da alma, entre as quais se destacava a mediunidade.
Somente quando tinha conseguido extinguir em si próprio o fogo das paixões, suprimir os desejos impuros e orientar os impulsos do seu ser para o Bem e para o Belo, é que o adepto podia participar dos grandes mistérios, passando então a obter certos poderes sobre as forças da natureza e a se comunicar com as potências ocultas do Universo.
Os iniciados passavam então a conhecer os segredos das forças fluídicas e magnéticas, pois que a ciência oriental dos santuários havia explorado o domínio dos fenômenos do sonambulismo e da sugestão.
Neles encontravam meios de ação incompreensíveis para o vulgo, mas facilmente hoje explicáveis pelo Espiritismo, pois nada havia de sobrenatural nesse mundo oculto, conhecido dos antigos e regido por leis exatas e que, justamente ao contrário, constituíam uma manifestação das forças sutis, face então ignorada da Natureza.
Os ensinamentos secretos abriam ao pensamento dos iniciados perspectivas suscetíveis de causarem desequilíbrios aos espíritos mal preparados que, ao vislumbrarem o infinito, ficavam perturbados e desvairados, sendo, portanto, vedados às almas mais débeis e somente reservados aos mais fortes e valentes; daí a necessidade de passarem pelos processos de iniciação.
Os iniciados, após adquirirem o conhecimento das leis superiores do espírito, praticavam uma fé esclarecida, com serena confiança no futuro e tolerância para com todas as demais crenças religiosas, por inferirem que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças.
Todos os ensinamentos religiosos do passado na verdade se ligam, porque em sua base se encontra uma só e mesma doutrina, transmitida de idade em idade a uma série ininterrupta de sábios e pensadores.
Essa doutrina secreta da antiguidade, mãe das religiões e das filosofias, revestiu-se de aparências diversas no decorrer das idades, mas sua base permaneceu imutável em toda parte. Nascida simultaneamente na Índia e no Egito, daí passou ao ocidente acompanhando as ondas migratórias, espalhando-se por todos os países ocupados pelos celtas e difundindo em seu esteio as práticas mediúnicas entre os seus iniciados.
Por toda parte, através da sucessão dos tempos, em diferentes povos se verificou a existência e a perpetuidade de um ensino secreto que se encontra no fundo de todas as grandes concepções religiosas ou filosóficas do passado.
Os sábios, os pensadores, os profetas dos templos, dos mais diversos países neles acharam a energia e a inspiração, que os fizeram empreender grandes coisas e transformar almas e sociedades, sempre as impelindo para frente no estado evolutivo do progresso, revelando uma grande e misteriosa corrente espiritual saída do mundo invisível que a tudo domina e envolve, onde vivem e atuam os grandes Espíritos que têm servido de guias à humanidade terrena, e que com ela jamais cessaram de se comunicar.
1.3.1. A Mediunidade nos Pródromos do Hinduísmo
O hinduísmo, também chamado bramanismo, é considerado a mais antiga religião do mundo. Seus livros sagrados são os Vedas e, posteriormente, os Upanishads, palavra sânscrita que significa “sentar-se ao lado”, (isto é, “lição oral”), tidos como conclusão dos Vedas.
Considerado o código religioso mais antigo que se conhece, os Vedas remontam a datas muito recuadas na História, admitindo-se ter o mais antigo e o mais importante desses textos sagrados, o Rig-Veda, surgido há cerca de 10.000 a.C.
Esses escritos antiqüíssimos, cuja idade correta ainda não pôde ser fixada, constituem o molde em que se formou a religião primitiva da Índia e são os primeiros livros em que se encontra exposta a doutrina secreta, fundo de todas as religiões e dos livros de todos os povos.
Durante a época védica, anacoretas “rishis” (sábios videntes) passavam o dia em retiro na vasta solidão dos bosques e às margens de rios e lagos; como intérpretes da ciência oculta, a doutrina secreta dos Vedas, eles possuíram misteriosos poderes que, transmitidos de século em século, exercem ainda hoje os chamados “faquires” e “iogues”.
Desde tempos imemoriais, os sacerdotes brâmanes, iniciados nos mistérios sagrados, preparavam indivíduos chamados “faquires” para a obtenção dos mais notáveis fenômenos mediúnicos, tais como a levitação, o estado sonambúlico até o nível de êxtase, a insensibilidade hipnótica a dor, entre outros, além do treino para a evocação dos “pitris” (espíritos que vivem no Espaço, depois da morte do corpo), cujos segredos eram reservados somente àqueles que “apresentassem quarenta anos de noviciado e de obediência passiva”.
Os Vedas trazem referências às comunicações mediúnicas, por exemplo, através do grande legislador Manu: “Os espíritos dos antepassados, no estado invisível, acompanham certos brâmanes convidados para as cerimônias em comemoração aos mortos, sob uma forma aérea, seguem-nos e tomam lugar ao seu lado quando eles se assentam”.
O antigo texto sagrado hindu “Bagavatta” declara: “Muito tempo antes de se despojarem do envoltório mortal, as almas que só praticaram o bem, como as que habitam o corpo dos ‘sannyassis’ e dos ‘vanaprastha’ (anacoretas e cenobitas) adquirem a faculdade de conversar com as almas que as precederam no ‘swarga’ (mundo espiritual); é sinal que para essas almas, a série de transmigrações sobre a Terra terminou”.
Krishna, educado pelos ascetas no seio das florestas de cedros no sopé do Himalaia, apareceu na História como o primeiro dos reformadores religiosos dos missionários divinos, renovou as doutrinas védicas, e afirmava no livro sagrado “Mahabhârata”: “Muito tempo antes de se despojarem de seu envoltório mortal, as almas que só praticaram o bem adquirem a faculdade de conversar com as almas que as precederam na vida espiritual”. E isso ainda hoje é afirmado pelos brâmanes na doutrina dos “Pitris”, pois, em todos os tempos a evocação dos mortos tem sido uma de suas formas de liturgia.
1.3.2 A Mediunidade na Religião do Antigo Egito
A religião desempenhou um papel predominante na vida dos antigos egípcios, deixando sua marca em quase todos os setores de sua civilização, a ponto de sua arte ser uma expressão de simbolismo religioso, e de sua literatura e filosofia estarem embebidas de ensinamentos religiosos.
As concepções filosófico-religiosas no antigo Egito propagavam a idéia de um universo eterno regido por uma inteligência suprema, a noção de ciclos de acontecimentos que se reproduziam constantemente, e a doutrina das causas naturais, lastreados num idealismo moral e ético.
Seus adeptos criam na consciência inalterável de Deus como o Arquiteto do destino humano, na imortalidade da alma, na providência divina, no perdão dos pecados e nas recompensas e punições depois da morte.
Contudo, a verdadeira alma do Egito, o segredo de sua vitalidade e do seu papel histórico, reside na doutrina secreta dos seus sacerdotes, cuidadosamente velada sob os mistérios de Ísis e Osíris, e experimentalmente analisada, no fundo dos templos, por iniciados de todas as classes e de todos os países.
O culto popular de Ísis e de Osíris não era senão uma brilhante miragem oferecida à multidão. Debaixo da pompa dos espetáculos e das cerimônias públicas, ocultava-se o verdadeiro ensino dos pequenos e grandes mistérios.
Sob formas austeras, os princípios dessa doutrina secreta foram, posteriormente, expressos nos livros secretos de autoria de Hermes, identificação feita pelos gregos ao deus egípcio Toth, cujo conteúdo incluía o conhecimento da teologia e da filosofia (Hermetismo erudito), da astrologia, alquimia e magia, (Hermetismo popular), apelidado “Trismegisto” (três vezes grande), autor ou inspirador de 42 livros: 36 conteriam a ciência dos egípcios e os restantes, os conhecimentos da medicina, constituindo assim uma vasta enciclopédia; mas nem todos chegaram até os tempos atuais.
De forma idêntica às práticas religiosas da antiga Índia, as faculdades mediúnicas no Egito foram desenvolvidas e praticadas no silêncio dos templos sagrados sob o mais profundo mistério, e rigorosamente vedadas à população leiga.
Hermes Trismegisto afirmava, em relação aos conhecimentos ocultos, entre os quais se achava o mediunismo: “O véu do mistério cobre a grande verdade, pois o conhecimento total desta só pode ser revelado àqueles que atravessarem as mesmas provas que nós (‘provas iniciáticas’). É preciso medir a verdade segundo as inteligências, velá-la aos maus, que dela fariam arma de destruição”.
A iniciação nos templos egípcios era cercada de numerosos obstáculos e de reais perigos, cujas provas físicas e morais eram longas e múltiplas, passando, entre outras, pelas provas da morte, do fogo, da água e da escravidão dos sentidos. Exigia-se o juramento de sigilo, e a menor indiscrição era punida com a morte.
Essa temível disciplina dava forma e autoridade incomparáveis à iniciação e à religião secreta. À medida que o adepto avançava em seu curso, descortinavam-se-lhes os véus, fazia-se mais brilhante a luz e se tornavam mais vivos e animados os símbolos. O alvo mais elevado a que um iniciado podia aspirar era a conquista dos poderes sobrenaturais, cujo emblema era a coroa dos magos.
Saídos de todas as classes sociais, mesmo das mais ínfimas, os sacerdotes eram os verdadeiros senhores do Egito; os reis, por eles escolhidos e iniciados, só governavam a nação a título de mandatários.
Todos os historiadores estão de acordo em atribuir aos sacerdotes do Antigo Egito poderes que pareciam sobrenaturais e misteriosos. Os magos dos faraós realizavam todos esses prodígios que são referidos na Bíblia; mas, deixando de lado o que pode haver de lendário nessas narrações, é bem certo que eles evocavam os mortos, pois Moisés, seu discípulo, proibiu formalmente que os hebreus se entregassem a essas práticas.
Portanto a comunicação com os espíritos sempre existiu e é tão velha quanto o mundo. Se o próprio Moisés proibiu o intercâmbio do povo hebreu com os mortos, é porque isso era razoavelmente possível.
Os sacerdotes do antigo Egito eram tidos como pessoas sobrenaturais, em face dos poderes mediúnicos, que eram misturados maliciosamente com práticas mágicas e de prestidigitação. A ciência dos sacerdotes do Egito antigo ultrapassava em muito a ciência atual, pois conheciam o magnetismo, o sonambulismo, curavam pelo sono provocado, praticavam largamente a sugestão, provocavam a clarividência com fins terapêuticos e eram célebres pelas práticas de curas hipnóticas.