Psicofonia Ou Incorporação
É a variedade de mediunidade de efeitos intelectuais em que o médium fala sob influência, mais direta ou mais intuitiva, dos espíritos desencarnados. O médium de psicofonia é aquele que proporciona o ensejo a que os desencarnados entrem em comunicação com os denominados “vivos” através da palavra falada, travando conversações; é forma bastante proveitosa de mediunidade, pois possibilita se estabelecer diálogo direto com o espírito comunicante. Nessas condições, o médium sob atuação do desencarnado comunicante pela psicofonia pode dizer coisas inteiramente fora do ambiente de suas idéias habituais, de seus conhecimentos e, até mesmo, fora do alcance de sua inteligência.
Não é raro verem-se médiuns iletrados e de inteligência vulgar expressarem-se, em tais momentos, com verdadeira eloqüência, e tratar com incontestável superioridade questões sobre as quais seriam incapazes de emitir sequer uma opinião, em estado ordinário. Conforme a mecânica do processo mediúnico, os médiuns falantes, de psicofonia, ou ainda de incorporação, apresentam uma das seguintes variedades: psicofonia ou incorporação inconsciente ou sonambúlica, psicofonia ou incorporação semiconsciente e psicofonia ou incorporação intuitiva ou consciente.
Psicofonia ou Incorporação Sonambúlica ou Inconsciente
Logo que o perispírito do médium sonambúlico se afasta do seu corpo físico, durante o transe mediúnico ou cataléptico, permanecendo ligado ao corpo apenas pelos cordões fluídicos mais importantes, o espírito desencarnado comunicante pode agir como se estivesse em seu corpo terreno, ou atua como num caso de hipnose, servindo-se do cérebro do médium para compor os seus ditados. Como o espírito do sensitivo também fica afastado do corpo físico juntamente com o seu perispírito, ele então fica impedido de tomar conhecimento simultâneo da comunicação, em vista de não passar pelo seu cérebro espiritual. Desse modo, o desencarnado pode falar (psicofonia inconsciente sonambúlica) e/ou escrever (psicografia mecânica) com toda naturalidade, usando o seu arquivo pessoal de vocábulos familiares como os empregava quando no mundo material.
Na mediunidade sonambúlica, mecânica ou inconsciente, a própria entidade comumente se distingue de outras, técnica e psicologicamente, nos seus relatos, devido ao fato de operar por um medianeiro em completo estado de passividade que, portanto, não lhe opõe obstáculos quanto à sua real identificação.
Na mediunidade sonambúlica, o espírito desencarnado que deseja se comunicar tem a possibilidade de agir diretamente sobre o sistema cérebro-espinhal do corpo físico do médium, em combinação com o conjunto de gânglios nervosos.
A mediunidade inconsciente é raríssima, tanto nos terreiros como nas mesas espíritas. É certo que os espíritos primitivos ou sofredores são mais “possessivos”, porque seus fluidos demasiadamente vitalizados pelo éter físico da Terra, atuam de modo coercitivo, e assim reduzem algo da consciência dos seus instrumentos. Isso acontece geralmente com as criaturas obsediadas, que perdem o domínio de seu corpo e, ao voltarem de suas crises obsessivas, pouco se lembram do que aconteceu.
O espírito desencarnado, quanto mais sublime, tanto menor é sua ação física sobre o médium, e mais predominantemente inspirativa é sua comunicação.
Aquele que encarna com o compromisso de ser porta-voz dos desencarnados para seres encarnados, tem sua constituição física, astral e mental diferente das demais criaturas. Seus corpos mental, astral e etérico receberam acréscimos em seus chacras, ou centros vitais, que o fazem sentir as “coisas” de forma diferenciada em relação a outros seres espirituais encarnados não médiuns ostensivos.
É possuidor de tela etérica, tela búdica ou tela atômica “afrouxada” (ou, por vezes, rompida) para que haja o processo de ligação fluídica entre o médium e o desencarnado. Esse ajuste é feito em 3 núcleos vibratórios, ou seja, em 3 regiões onde as malhas da sua tela etérica estão afrouxadas em seu complexo etéreo-físico (o duplo etérico), obviamente dirigidas pelo comando central do corpo mental, que envia impulsos em forma de mensagens, veiculadas pelas linhas de força (condutores vibracionais) ao corpo astral.
Este, por sua vez, através dos seus centros vibratórios principais (centros de forças astrais ou chacras astralinos), vibra em consonância com os chacras do duplo etérico, que no corpo físico denso se equivalem aos plexos nervosos (conjuntos estruturais de nervos) e glândulas endócrinas (que produzem e armazenam hormônios).
| Região | Correspondência |
|---|---|
| Cervical (pescoço) | relacionado com o verbo, a expressão, o elo da comunicação |
| Torácica-abdominal | correspondente aos processos básicos do sentimento e da ação |
| Sacral | vozes da experiência e da criatividade |
Núcleos vibratórios (pontos vulneráveis) na tela etérica do médium.
Psicofonia Ou Incorporação Semiconsciente
No momento de transmitir os seus pensamentos, o espírito comunicante nunca interpenetra a organização física do médium, mas apenas lhe movimenta os centros nervosos, no sentido de cumprir a sua missão espiritual junto aos encarnados. Em geral, o espírito comunicante senta-se junto ao médium, enlaça-o com o braço esquerdo e, com o direito, cobre-lhe o cérebro, acionando-lhe o campo da memória perispiritual, a fim de lograr maior acervo e recursos na tradução dos seus pensamentos.
Ele tudo faz para evitar as imersões do subconsciente do médium, pois deste modo, a mensagem ficaria algo truncada ou perturbada nos momentos de maior ressalte espiritual. O espírito comunicante procura sintonizar a sua luz mental, irradiada de sua epífise (glândula pineal) perispiritual, com a luz mental que também aflora da epífise física do médium. Ele procura efetuar uma combinação a mais lúcida possível ou homogênea, a fim de facilitar ao médium transmitir com suas próprias palavras as idéias que ventila no contato perispiritual.
A mecânica de incorporação, em sua fase semiconsciente, se processa quando a entidade astral influencia parte do corpo mental (ou campo mediúnico) do médium, atuando relativamente em três pontos básicos, sempre a partir do campo mental:
| Região fundamental de envolvimento fluídico | Ação sobre o complexo mental-astral-etérico | Função |
|---|---|---|
| Chacras superiores (coronário, frontal e laríngeo) | Parte psíquica (centros encefálicos superiores) | psíquica |
| Chacras intermediários (cardíaco e gástrico) | Parte sensitiva (centros encefálicos sensitivos) | sensorial e emotiva |
| Chacras inferiores (esplênico, genésico e básico) | Parte motora, ou de movimentação e produção energética (córtex motor) | motora |
Na mecânica de incorporação inconsciente e semiconsciente, sob dependência vibracional da entidade astral, vários chacras do médium podem ser ativados simultaneamente, mas sempre o são três chacras, um de cada ponto básico de atuação acima.
Psicofonia ou Incorporação Intuitiva ou Consciente
As comunicações dos desencarnados para o mundo físico, pela via intuitiva, são transmitidas através do cérebro perispiritual do médium, e não diretamente sobre o seu cérebro físico. Às vezes é algo de sua inspiração emotiva, em sintonia com a inspiração intelectiva, que o faz sentir melhor pressentir o fenômeno da comunicação, do que mesmo “ouvir” a voz imaterial dos espíritos.
A incorporação intuitiva é uma forma de mediunidade que só evolui em concomitância com a evolução moral e intelectual do próprio médium, proporcionando-lhe, pouco a pouco, a visão panorâmica cada vez mais profunda das coisas imateriais.
Sendo o homem encarnado um espírito imortal, quanto mais se expande a centelha espiritual que há na intimidade do seu ser, maior porção também ele abrangerá da realidade do próprio Criador.
Nesse sentido, o apuro moral do espírito lhe faculta uma participação mais intensa na vida oculta, enquanto o seu aprimoramento mental lhe permite julgar com eficiência e exatidão aquilo que proveitosamente lhe facilita o poder do sentimento cristificado. Embora o médium intuitivo não possa ver ou ouvir os assuntos que o espírito desencarnado esteja lhe comunicando, ele os sente profundamente em sua própria intimidade perispiritual; depois os reúne, à força de sua inspiração intelectiva, e coordena a exposição para o mundo exterior.
Em conseqüência, o médium intuitivo se vê obrigado a recepcionar apenas “parte” da realidade espiritual do mundo extrafísico, cabendo-lhe compensar a deficiência com as sugestões e as imagens terrenas que lhe são conhecidas, ajustando-as de modo comparativo ao que pressupõe ser a fenomenologia astral. Ele também pode mobilizar todos os seus esforços de memorização espiritual, na tentativa de evocar as lembranças dos seus estágios já vividos no mundo astral, durante os períodos em que manteve desencarnado, nos intervalos de suas anteriores encarnações, a fim de tornar coerentes os relatos recebidos do Além.
O médium intuitivo por vezes sente-se sozinho durante a sua comunicação mediúnica, notando que lhe foge o pensamento do espírito comunicante, que parece abandoná-lo, pois subitamente interrompe-se-lhe o curso das idéias que lhe fluíam espontaneamente pelo cérebro, sem que ele possa cogitar do seu desfecho. Isso ocorre sempre que entre o médium e o espírito se processam desajustes em matéria de conhecimentos, formando-se hiatos na mensagem mediúnica, pois quando, durante a transmissão mediúnica, as idéias, os pensamentos, a índole e os conhecimentos do médium intuitivo coincidem com o assunto que o espírito inspira, ele o transmite com segurança, enche-se de entusiasmo e se torna eloqüente, porque expõe aquilo que já lhe é familiar.
Por isso, ele deve manter-se em condições de poder atender ao apelo do Alto, transformando-se num instrumento mediúnico flexível, culto e desembaraçado, pronto a transmitir aos encarnados a mensagem com o melhor proveito espiritual. O médium intuitivo sensato, estudioso e serviçal, compreende que não é bastante se submeter ao transe mediúnico junto à mesa espírita, nas noites programadas, para cumprir satisfatoriamente o seu mandato, pois, mesmo em estado de vigília e sob o inteligente treinamento do seu guia, ele pode recepcionar as mensagens de favorecimento ao próximo, transmitindo o conselho, a sugestão e a orientação espiritual mais certa.
Daí, também, a intermitência que por vezes ocorre na comunicação do médium, visto que em certo momento os seus guias ou protetores o deixam “falar sozinho”, por assim dizer, obrigando-o dessa forma a mobilizar urgentemente os seus próprios recursos intelectuais e apurar o mecanismo da mente, a fim de não decepcionar os presentes. Sob a direção e o controle do guia do médium, os espíritos comunicantes suspendem então o fluxo das idéias que lhe transmitiam pelo cérebro perispiritual, o qual é obrigado assim a unir os elos vazios da comunicação, demonstrando até que ponto é capaz de expor a mensagem espiritual sem distorcê-la ou fragmenta-la na sua essência doutrinária.
Essa ação imprevista, que obriga o médium a convocar a todos os seus valores intelectivos e morais, para fazer a cobertura da “fuga” do pensamento do espírito comunicante, é algo parecida àquilo que acontece ao orador desprevenido e repentinamente obrigado a falar em público, o qual se vê obrigado a rapidíssima aceleração mental, para não cometer fiasco. Embora esse inopinado recurso do guia constranja e atemorize o médium, pouco a pouco ele adquire o treino preciso para prelecionar “de improviso” e compensar o vazio das idéias que compõem a sua comunicação mediúnica, não demorando a ser elemento útil e capaz de atender, a qualquer momento, à necessidade de orientar e servir ao próximo. Nesse caso, não se processa propriamente a interferência anímica do médium intuitivo durante esses hiatos provocados pelos espíritos comunicantes, obrigando-o então a agir pelo seu “puro animismo” num sentido prejudicial, mas, na realidade, o que se evidencia ao público é a bagagem intelectual, o temperamento psíquico e moral do próprio médium, que então “fala sozinho”.
Ele fica entregue provisoriamente a si mesmo, sem poder fugir ao impulso da comunicação, tanto quanto o escolar que é argüido em época de exames. O médium intuitivo precisa socorrer-se de suas próprias concepções filosóficas, morais e espirituais, para preencher sozinho os intervalos propositais criados pelo espírito comunicante. É verdadeiramente um “teste” a que ele se submete sob orientações espirituais proveitosas, em que deverá comprovar o que já assimilou, até aquele momento, das leituras doutrinárias, qual o seu índice filosófico de julgamento e apreciação da vida humana, e a sua capacidade de orientar o próximo entre as paixões animais.
Certas vezes, as comunicações mediúnicas intuitivas podem ser truncadas propositadamente pelos orientadores do médium, a fim de comprovar o seu grau de segurança e saber como se portaria em caso de interferência, intromissão ou mistifórios de entidades mal intencionadas que, por vezes, se infiltram entre os sensitivos invigilantes à guisa de mentores espirituais. Sob tal processo de pedagogia espiritual, o médium encoraja-se e não tarda a esposar pessoalmente, nas suas relações cotidianas, o conteúdo espiritista e a sugestão evangélica que assimilou obrigatoriamente sob o treino hábil do seu guia. Isso ainda mais o anima para o estudo, ajuda-o a desenvolver o senso de crítica superior e de argumentação junto aos amigos, e o fortalece definitivamente para a defesa dos postulados do Espiritismo.