O Aproveitamento Anímico nas Comunicações Mediúnicas
Não se pode endossar os abusos de imaginação, os exotismos e as excentricidades dos médiuns avessos ao estudo, presunçosos, interesseiros ou exibicionistas, mas deve-se reconhecer, no entanto, a interferência ou associação de idéias no caso do médium consciente porque, no seu esforço para lograr a passividade no transe, ele toma o conteúdo de sua alma como sendo manifestação alheia.
Nem todos abusam do animismo sob propósitos condenáveis ou para fins vaidosos, por cujo motivo não se deve acolher a desistência do desenvolvimento mediúnico, só porque a interferência do médium perturba a transparência cristalina das comunicações dos espíritos desencarnados.
O êxito mediúnico se apóia, sem dúvida, inicialmente nos percalços do animismo.
Sabe-se de muitos médiuns experiente e com vários anos de serviço mediúnico que ainda alimentam dúvidas a respeito de suas próprias comunicações mediúnicas, certos de que tudo aquilo que transmitem provêm apenas de sua própria alma. Os mais escrupulosos chegam a alimentar desejos de abandonar a tarefa mediúnica, a fim de não iludirem o público com pseudocomunicações, que nada têm a haver com espíritos desencarnados!
Entretanto, o médium não é um boneco vivo, insensível e de manejo mecânico, mas sim uma organização ativa, com vocabulário próprio e conhecimentos pessoais adquiridos pela sua experiência e cultura humanas. Além de tudo, é alma guardando em sua memória, forjada nas experiências pregressas, a síntese dos seus esforços para a ascese espiritual.
Quando se trata de médium consciente ou semiconsciente, só lhes resta a tarefa de vestir e ajustar honesta e sinceramente as idéias e as frases que melhor correspondem ao pensamento que lhes é manifesto pelos espíritos desencarnados através do seu contato perispiritual. Deste modo, os comunicantes ficam circunscritos quase que totalmente à vontade e às diretrizes intelectuais e emotivas do seu intérprete encarnado, que fiscaliza, observa e até modifica conscientemente aquilo que foi incumbido de dizer.
Lembra o mensageiro terrestre que ouve o recado para transmitir verbalmente a outrem, mas na hora de cumprir sua tarefa, tem de usar de suas próprias palavras para comunicá-lo. No caso, tanto o mensageiro como o médium são intérpretes do pensamento alheio e, por isso, influem com o seu temperamento, engenho e cultura nas mensagens que traduzem, resultando disso textos lacônicos ou prolixos, precisos ou truncados.
Só o médium com propósitos condenáveis é que poderia ter remorsos de sua interferência anímica, pois nesse caso tratar-se-ia realmente de uma burla à conta de animismo. Entretanto, não é passível de censura aquele que impregna as mensagens dos espíritos com forte dose de sua personalidade, mas o faz sem poder dominar o fenômeno, ou mesmo distingui-lo da realidade mediúnica.
É tão sutil a linha divisória entre o mundo espiritual e a matéria, que a maioria dos médiuns conscientes e bisonhos dificilmente logra perceber quando predomina o pensamento do desencarnado ou quando se trata de sua própria interferência anímica.
Só depois de:
- alguns anos de trabalho assíduo na seara mediúnica,
- estudos profícuos,
- afinada sensibilidade mediúnica,
- muita capacidade de autocrítica e introspecção freudiana,
… é que o médium logra dominar e distinguir com êxito o fenômeno anímico, recepcionando mensagens sem destruir a autenticidade do pensamento do espírito comunicante.
Não é aconselhável que se procure eliminar deliberadamente o fenômeno anímico nas comunicações mediúnicas, pois isso ainda dificultaria mais o desenvolvimento mediúnico e as comunicações doutrinárias aos próprios médiuns, uma vez que os guias não objetivam a criação de autômatos mediúnicos, espécie de robôs acionáveis à distância.
O que os bons guias preferem em seus médiuns ainda é o serviço cristão incondicional, aliado ao estudo sincero da espiritualidade; satisfazem-nos a revelação da ternura, a prática da benevolência e da tolerância, a cultura da honestidade e a manifestação da humildade, pois, malgrado possam ser anímicos para as mensagens dos desencarnados, ser-lhe-ão os mais louváveis intérpretes, em incessante comunicação benfeitora à luz do dia.
Não se deve exaltar o médium sonambúlico e absolutamente inconsciente do que transmite, que é incapaz até mesmo de interferir animicamente, se ele é profundamente desperto para a prática dos vícios degradantes e para o trato das paixões perigosas, pois, se quando dorme em transe sonambúlico é servidor inconsciente, uma vez acordado pode ser a manifestação anímica do mal.
Os espíritos não se preocupam em eliminar radicalmente o animismo nas comunicações mediúnicas, porque o seu escopo principal é o de orientar os médiuns aos poucos, para as maiores aquisições espirituais, morais e intelectivas, a ponto de poderem endossar-lhes depois as comunicações anímicas como se fossem de autoria dos desencarnados.