Animismo
O fenômeno anímico, na esfera das atividades espíritas, significa a intervenção da própria personalidade do médium nas comunicações dos espíritos desencarnados, quando ele impõe nelas algo de si mesmo, à conta de mensagens transmitidas do Alto. Assim, quando se afirma que determinada comunicação mediúnica foi “puro animismo”, quer-se explicar que a alma do médium ali interveio com exclusividade, tendo ele manifestado inconscientemente apenas os seus próprios conhecimentos e conceitos pessoais, embora depois os rotulasse com o nome de algum espírito desencarnado.
A interferência anímica inconsciente é, por vezes, tão sutil que o médium é incapaz de perceber quando o seu pensamento interferiu ou quando é o espírito comunicante que transmite suas idéias pelo contato perispiritual.
Contudo, os espíritos comunicantes, realmente gratos ao Pai pelo ensejo de poderem inspirar médiuns anímicos em favor da ventura, do bem e da alegria dos seres humanos, não desprezam a oportunidade, mesmo que sejam interpretados ao modo pessoal do médium, desde que este conserve a idéia central e autêntica daquilo que lhes foi incutido na alma.
A comunicação do médium completamente anímico não pode ser interpretada como mera mistificação inconsciente quando ele não tem o intuito de enganar deliberadamente aqueles que o ouvem.
A comunicação anímica é decorrente da falsa suposição íntima do médium julgar-se atuado por espíritos, por cujo motivo transmite equivocadamente suas próprias idéias; já a mistificação é fruto da má intenção.
A criatura anímica, quando em transe, pode revelar também o seu temperamento psicológico, as suas alegrias ou aflições, suas manhas ou venturas, seus sonhos ou derrotas. Desde que essa manifestação anímica, à guisa de mediunidade, se manifeste pelo transe conturbado e assinalada por cenas dolorosas, fatos trágicos ou detestáveis, então se trata de médium desajustado ou doente, requerendo mais amparo e orientação espiritual, para dominar as suas impressões mórbidas do subconsciente, do que mesmo de desenvolvimento mediúnico.
Algumas vezes o médium anímico transmite fatos mórbidos que o impressionaram na infância, ou mesmo as cenas trágicas vividas em existência pregressa, como se fossem histórias de espíritos infelizes desencarnados. As incursões do inconsciente, estudadas na psicanálise, são também responsáveis por algumas dessas supostas manifestações intempestivas e conturbadas, em que os médiuns excessivamente anímicos e sugestionáveis pressupõem manifestações do Além-túmulo.
Certos neófitos enfermos, histéricos, exaltados, esquizofrênicos ou neurovegetativos ainda confundem o fenômeno mediúnico com as suas próprias manifestações mórbidas, e transferem facilmente para a atividade mediúnica os fatos ou simpatias que mais o impressionaram na existência.
Sem dúvida, há médiuns de “mesa” ou de “terreiro” que requerem uma drenagem terapêutica a fim de melhorarem o seu contato com o mundo psíquico e distinguirem a sua interferência anímica nas comunicações com os desencarnados, pois há muitos que confundem mediunidade com certos recalques e complexos psicanalíticos. Tanto na seara espírita, como nos terreiros de Umbanda, ainda pontificam criaturas neuróticas, esquizofrênicas, exaltadas, neurovegetativas e histéricas que, em contato empobrecido com o Além-túmulo, ainda confundem seus próprios recalques, impulsos enfermiços, complexos e alucinações à guisa de manifestações de espíritos!
Não há dúvida de que o médium, em geral, veste as idéias dos desencarnados com algo de sua natureza anímica, podendo deformar parte dos pensamentos deles pela sua própria maneira de sentir e pensar! Evidentemente, uma boa garimpagem psicanalítica talvez pudesse sanear a mente complicada de muitos médiuns, ajustando-os na sua função de intérpretes do Além. Sob tais condições, então predominam as idéias fixas, os falsos messianismos, auto-exaltações, recalques, fobias e sublimações enganosas.
Embora esses médiuns sejam vítimas de sua própria exaltação psíquica, agindo sem má intenção, tornam-se improdutivos e até semeiam prejuízos por confundirem o sensato com o ridículo, e o verdadeiro com o falso! Sem dúvida, o método de psicanálise freudiano poderia ajudar esses médiuns quanto à drenagem de suas próprias contradições e complexos, levados à conta de mediunidade.
Algumas criaturas inexperientes e até perturbadas, às vezes se transformam em missionários, dominados pela preocupação febril de “salvar a humanidade”, e assim pontificam na seara espírita como doutrinadores ou médiuns, expondo coisas ridículas à guisa de revelações de elevada sabedoria espiritual.
O médium anímico inculto, sugestionável, enfermiço ou moralmente falho é vítima passiva das suas próprias idéias, das emersões da memória pregressa e das sugestões anímicas medíocres.
Facilmente ele há de tomar por manifestação de espíritos desencarnados tudo aquilo que se potencializa à superfície de sua mente e sob a influência de qualquer clima catalisador de animismo. O ambiente de uma sessão mediúnica nos moldes espíritas é um clima adequado para favorecer a associação de idéias, a emersão do subconsciente ou o ajuste das impressões do dia nas criaturas mais sugestionáveis, que assim se confundem a ponto de se crerem mediunizadas pelos espíritos; ali tudo converge para impulsionar, acelerar o conteúdo psicológico, a bagagem freudiana e os automatismos incontroláveis do médium excessivamente anímico.