Crença em Deus
Somente a crença em Deus não basta para a elevação do homem em Sua direção, mas sim o desenvolvimento em si mesmo dos atributos divinos, ou seja, a ampliação da miniatura divina que todo ser possui dentro de si próprio. Somente crer em Deus não é a vivência em Deus; não é propriamente achá-Lo! A crença, de per si, não é uma auto-realização, não proporciona o autêntico encontro de Deus, mas apenas uma simples projeção do próprio indivíduo no desconhecido.
A simples crença traz em si uma recompensa extramaterial, constituindo um verdadeiro mercado de redenção espiritual, onde os crentes investem na expectativa dos dividendos da Divindade, pois têm na crença um motivo para viverem mais confiantes e esperançosos, pretensamente garantindo a salvação, caso exista alguma coisa além e após a morte do corpo físico. As religiões organizadas ficam repletas de crentes que cultuam certos postulados afins a uma idéia específica de Deus, condicionados a uma crença sistemática e padronizada, sem entretanto, modificarem o seu “eu interior” e sem incorporarem os valores incomuns do “EU superior” divino, que é conquista individual através do estudo, pela abnegação, serviço ao próximo e, sobretudo, ação independente de qualquer interesse egoísta.
Pouco adianta o homem crer em Deus e não desenvolver em si mesmo os atributos divinos que possui latentes no âmago do seu próprio espírito, pois somente a ativação em si mesmo dos princípios que sintetizam o Amor, a Sabedoria e o Equilíbrio infinitos é que fará a criatura conseguir maior proximidade com o Criador. A crença puramente intelectual e especulativa torna-se atributo dispensável, caso não modifique a maneira de agir e sentir do homem! Embora o intelecto planeje através do poder mental, o centro psíquico que sublima e sensibiliza o ser é a afetividade, que vitaliza o crescimento divino através do Amor!
A crença em Deus é de pouca significação no homem que não desenvolve em si próprio os valores críticos, mesmo que venha contribuindo financeiramente com obras religiosas e caritativas, geralmente por medo de perder o Céu! Muitos são aqueles que crêem veementemente em Deus, freqüentam instituições religiosas, mas vivem de maneira tão censurável que desmentem frontalmente a posse dos atributos do mesmo Criador em que eles crêem acreditar. A descrença em Deus não é atestado de inteligência incomum, mas apenas fruto da excessiva escravidão aos sentidos físicos do homem transitório, e conseqüência da ignorância humana de não saber que o Criador permanece integrado na sua obra, podendo ser “sentido” pelas suas criaturas.
Isso ocorre quando o intelecto orgulhoso da personalidade humana transitória se sobrepõe à intuição do espírito imortal, dinamizado pelo cientificismo querelante, sentindo-se humilhado em fazer concessões a uma Realidade Divina, além de si mesmo. O estágio nos mundos físicos tem somente a função restrita de despertar os valores psíquicos do cidadão espiritual, mas impossível de lhe comunicar a Realidade Divina. O homem que ainda não se conhece a si próprio, infeliz vítima dos vícios e das paixões da coação animal, jamais deve se orgulhar de negar Deus, que criou o Universo.
A crença em Deus pode ser enfermiça e devastadora, quando contraria e desmente os próprios atributos da Divindade, pelos crentes que ainda cultuam o ódio, a ignorância, a maldade e a injustiça, que são opostos aos valores divinos do Amor, Sabedoria, Bondade e Justiça, ou seja, ainda cultuam as manifestações normais da natureza inferior humana, em face de ignorarem a existência das leis divinas que regem o Cosmo e que são emanadas do Ser Supremo. O crente que age de modo censurável e repelente nega a sua assimilação a qualquer postulado religioso de aspecto divino, e com isso demonstra o seu atraso espiritual.
É necessário que o homem creia para se renovar, para se higienizar espiritualmente, para se aperceber do divino e para atender ao impulso íntimo de comunhão com Deus na busca de ascese angélica, mas é ignomínia toda crença que divide os homens, e se transforma em atos censuráveis que desmentem frontalmente os valores autênticos da espiritualidade ante o predomínio dos instintos inferiores da animalidade. Não se pode louvar qualquer crença em Deus que leve o homem a se desgraçar em lutas antifraternas e religiosas.
A crença em Deus leva o indivíduo a demonstrar certa humildade, uma vez que confia em algo superior a si próprio, ao admitir a existência de um Criador além de sua reconhecida incapacidade humana. Essa humildade traduz um eficiente estado de apercebimento da própria vida superior, ou faculdade de auscultação psíquica que favorece o fluxo de intuição e, enquanto manifestação transcendental, requer uma certa eletividade do homem, uma espécie de encontro simpático no limiar de ambos os mundos espiritual e material.
Assim a crença em Deus, e a admissão da sobrevivência do espírito, já é uma comprovação de uma sensibilidade mais incomum, embora possa ser rotulada de superstição, misticismo ou ingenuidade. Por outro lado, todo aquele que tiver de provar, pela matemática e lógica do mundo, todo fenômeno ou previsão do futuro, para só então crer em Deus, será lamentado pela infelicidade de nunca poder crer em Deus, porque, além de não poder analisa-lo e descreve-lo, Ele é incomprovável! A simples premissa de que para crer é preciso provar, torna o homem eternamente ateísta, pois o maior e o mais importante fenômeno, que é Deus, nunca poderá ser “provado”!