Conhecimento da Realidade de Deus
A criatura humana jamais conseguirá definir ou identificar racionalmente a Realidade Absoluta do Criador, embora ela seja também uma partícula divina, pois, tal como a parte não pode definir o Todo, o criado não tem como definir o Criador. Assim como um neurônio do cérebro humano não está em condições de avaliar o equipo “psicofísico” do seu dono, a criatura, que é tão somente uma partícula microcósmica do Universo, também não está capacitada para julgar e explicar o Cosmo em todos os seus aspectos.
Caso o homem pudesse fazê-lo, ele então seria outro Deus para ser descoberto, descrito e identificado, pois só outro Deus, além ou semelhante ao que se pretende conhecer, é que poderia lograr tal intento. Deus, fonte original e incriada da Vida, pré-existe antes de qualquer coisa ou ser; em conseqüência, não pode o homem explicar o que já existe muito antes e independente de sua própria existência! Deus é a própria Eternidade, e seria demasiada vaidade e estultícia o homem pretender conhecê-Lo em tão curto lapso da vida humana.
Deus é incessante e inesgotável alegria que mais interpenetra na intimidade da criatura quanto mais o homem avança em sua realização cósmica. Deus é o Espírito-Uno que sustenta cada forma e energia transcendental do Universo e existe no vazio do incriado, além de quaisquer fenômenos concebidos pelas criaturas em realização do autoconhecimento. Considerando-se Deus simbolizado por raios que partem geometricamente de um ponto central e se perdem no infinito, a consciência do homem pode ser comparada à figura de uma esfera limitada sobre o centro desses raios. À medida que o homem, após situar-se no seio da matéria, vai aumentando seu grau de conscientização, realizando em si mesmo seu desenvolvimento espiritual, vai ampliando, sua compreensão de Deus na mesma medida da amplitude da limitação humana.
Embora essa consciência se amplie e se desenvolva incessantemente em todos os sentidos, ela jamais alcançará os raios infinitos. Dessa forma, à medida que o ser amplia essa consciência no contato incessante e educativo com as formas dos mundos planetários, ele também abrange maior porção divina e mais se apercebe de Deus. É justamente esse desejo incessante do homem de conhecer e sintonizar-se com o Criador que o impele e o estimula para sua mais breve elevação espiritual.
Considerando-se Deus, o Espírito Total Cósmico, como “Chama” ou “Luz” infinita, acima e além do tempo e do espaço, então os espíritos dos homens, os filhos de Deus, podem ser comparados a pequenas centelhas emanadas dessa eterna, infinita e incognoscível Energia. No atual estágio de desenvolvimento espiritual do homem, de nada adiantaria o conhecimento da forma e da essência do seu Criador, pois isso não provocaria de per si as modificações necessárias e louváveis em sua vida, em direção à sua senda evolutiva, pela abdicação de interesses subalternos e pela dignificação da experiência das relações humanas.
A criatura que ainda vibra num estágio espiritual primário não se encontra preparada para entender a natureza real de Deus e sua manifestação cósmica; para tanto, precisa emancipar-se do instinto primitivo através do cultivo dos valores divinos adormecidos em seu próprio espírito. O espírito humano precisa superar os resquícios da linguagem animal que lhe originou o organismo carnal e adquirir o estado angélico, para se libertar definitivamente da matéria e realizar-se como ser espiritual integral.
Até que isso aconteça, deve procurar compreender os desígnios divinos através do respeito e do amor a todas as criaturas. Não é apenas a luta para ser livre da matéria que fará o homem conhecer Deus, mas é o binômio “sentir - saber” que realmente desvenda o panorama do infinito! Liberdade sem sabedoria é poder ser direção. O espírito realizado em Deus é aquele que já sobrepaira acima de todas as identificações com os sentidos e permanece consciente, em incessante união com o Criador.
Quando encarnado, vive ao mesmo tempo consciente de sua realidade divina, e entende os motivos de sua própria existência e os objetivos de sua eterna ventura, executando sua tarefa educativa no mundo, mas usufruindo sua jubilosa calma interior. Em outras palavras, o espírito realizado é aquele que já dominou ou extinguiu em si “Maya”, a ilusão cósmica dualista, citada pelos Vedas, ou seja, apercebeu-se da unidade divina do Cosmo, ao verificar que ele não é autenticamente o próprio corpo, porém o seu corpo é tão somente a manifestação exterior, num certo momento e num certo tempo, do Espírito Imortal!
A compreensão de Deus exige do homem uma realização interna e externa:
| Realização | Através da… | Exemplo |
|---|---|---|
| “Comunhão com Deus” (interna) | busca da sabedoria e do equilíbrio psíquico (harmonia interior) | estado de êxtase (samádhi) atingido pelos iogues |
| “Ação por Deus” (externa) | ação exterior de renúncia e serviço fraterno a todos os seres na natureza | prática da caridade pelos cristãos |
Jamais a criatura poderá equacionar o Universo e assimilar a natureza divina do Criador, confiando tão somente nos seus sentidos, mesmo que amparado pela mais perfeita técnica instrumental do mundo transitório e limitado da matéria.
É mais fácil ao homem aperceber-se da Realidade Divina através da intuição, cuja sensibilidade aumenta quanto mais ele aufere e ausculta o mundo espiritual, do que através da inteligência, que, em realidade, é conseqüência da energia espiritual oculta que aciona a mente humana. O homem poderia encontrar satisfatória solução da Realidade Divina através da própria Ciência, transformada em filosofia transcendental, porém, com mais sucesso e precisão, se guiado nessa busca pelo sentimento intuitivo, que é seu mais íntimo vínculo com a Mente Cósmica.
O destino glorioso do homem é a angelitude, e a luz que o guia queima no próprio combustível de sua centelha interna. Em face da própria centelha divina existente no âmago do homem, à medida que este amplia a compreensão mental também dinamiza o vínculo íntimo e intuitivo que liga a criatura ao Criador, a saber: o seu sentimento religioso! A incessante conscientização espiritual liberta-o das fórmulas, ritos, símbolos e dogmas interpostos pelas religiões convencionais no seu contato íntimo com Deus, e que o isolam da pureza iniciática religiosa de vibrar mais próximo da freqüência divina, pois, quanto maior for a amplitude de união eletiva entre os homens, também mais lhes é favorecida a penetração de maior área de Deus e, conseqüentemente, maior absorção de vibração divina.
Deus pode ser apercebido através das próprias leis imutáveis, sábias e criativas que agem corretamente em todos os níveis de vida e nas mais longínquas latitudes cósmicas. Através dessas leis e princípios, cuja finalidade é o equilíbrio e a ordem, e que visa sempre o aperfeiçoamento da criatura, é que Deus opera sobre todos os seres e as coisas; são leis impecáveis, sensatas e disciplinadas, que regem os fenômenos do mundo material e comprovam Sua presença oculta no Universo!
É a Vontade que preside todos os fenômenos do Cosmo e comunica a todos o anelo de perfeição e ascensão, pois o Universo é perfeito em sua criação infinita e eterna, porque perfeita é a Entidade Única que o criou! Jamais essas leis causaram surpresas, equívocos ou alienação, cuja existência só pode ser creditada à má interpretação ou ignorância humana. As próprias aberrações da Natureza, que poderiam despertar a censura dos homens contra um Criador imperfeito, não passam de importantes pesquisas e ensaios na busca de maior perfeição.
Há perfeita ordem e coerência em todos os fenômenos ocorridos na Natureza física de nosso planeta, os quais atestam o efeito inteligente, progressista e sensato, sob inflexível lógica que aperfeiçoa todas as formas e seres. Tudo é harmonioso, sensato e coerente pois não há excentricidade ou qualquer aberração injustificável. Basta a criatura sensível e sem premeditação perscrutar a intimidade dos acontecimentos desagradáveis ou trágicos, considerados inúteis e onerosos, para descobrir, sob o véu do que é asqueroso ou daninho, a mensagem de uma inteligência oculta que atua no mundo espiritual modelando na matéria as futuras formas de estesia angélica.
Há sempre indícios benéficos no âmago das coisas e dos seres bons ou maus, belos ou feios, sadios ou enfermos e que se pode evidenciar, aos poucos, à medida que se investiga e se conclui sobre os fenômenos da própria vida. As almas argutas podem perceber que essa ação oculta é mais sábia do que instintiva, é mais previsível do que simples acaso, mais ação do que passividade, disciplinando os mínimos acontecimentos sucedidos no Universo.