Diferenças Entre as Manifestações Mediúnicas nos Médiuns de “Mesa” e nos de “Terreiro”
O simples desvestimento do corpo carnal não extingue vícios, desejos e velhos hábitos estratificados no mundo físico, assim como os fenômenos pós-morte de sofrimento, lesões, fadiga, fome e sede não são frutos do pensamento indisciplinado, mas cruciante realidade, atuando com mais intensidade no espírito desencarnado.
A morte apenas transfere o espírito para outra moradia, sem lhe violentar o campo de idéias e emoções cultuadas no mundo material.
O homem culto volta a comunicar-se com a Terra, expondo o seu vasto cabedal de conhecimentos e experiências incomuns, em linguagem castiça e correta; já o ignorante e o primário comunicam-se num linguajar deturpado ou regional. A questão da manifestação mediúnica mais autêntica ou menos autêntica depende precipuamente da versatilidade ou submissão do médium às características do comunicante; daí o fato dos índios, caboclos e pretos velhos manifestarem-se nos terreiros com as suas peculiaridades vividas no mundo físico, por encontrarem ali o campo mediúnico adequado aos seus tipos.
Manifestam-se sem qualquer constrangimento, de conformidade com a sua estatura espiritual e o mecanismo de linguagem que lhes foi habitual no mundo físico, despreocupados de qualquer advertência severa de que não devem “falar errado”. Que vale ao preto-velho dispor de um médium letrado e altiloqüente, mas que lhe desfigura a individualidade ou o tipo peculiar de ancião exaurido na escravidão, pelo artificialismo de uma oratória brilhante e vocabulário fidalgo? Não seria absurdo exigir que a criança devesse usar de puro vernáculo e elevada conceituação moral, só porque se encontra entre adultos?
A liberdade de manifestação mediúnica nos terreiros e a docilidade proposital do cavalo aos estímulos ocultos, permitem aos espíritos comunicantes atuarem-lhe mais fortemente nas regiões dos plexos nervosos, assumindo o domínio do corpo físico e plastificando suas principais características; então, índios, pretos velhos e caboclos, vovozinhas e tiazinhas revelam-se nos terreiros com linguajar deturpado, costumes, cacoetes, risadas, adágios e tradições, à semelhança de verdadeiras cópias de sua realidade no Espaço!
Tais práticas, se conduzidas em trabalhos de mesa, seriam tidas à conta de imprudência, contrariando as advertências sensatas e lógicas de Allan Kardec, que têm por fim tornar os médiuns prudentes e vigilantes contra a penetração de espíritos zombeteiros e malfeitores, e poderiam até mesmo conduzir à obsessão. Enquanto o Espiritismo restringe os fenômenos mediúnicos em sua manifestação propriamente física, a Umbanda deve assegurar plena liberdade de ação dos espíritos comunicantes sobre os cavalos, os quais estão amparados pela defesa dos pretos velhos e caboclos, que escorraçam as entidades mal-intencionadas.
O terreiro significa, na realidade, a “mucamba” do preto e a “choça” do bugre, em que eles podem dar vazão à sua alegria, manter suas tradições primitivas, crenças religiosas e manifestações de acordo com suas idiossincrasias. É óbvio que o caipira se sente mais à vontade na casa do amigo pobre, do que sobre as poltronas de veludo do palácio do rico moderno!
Um dos principais fundamentos da Umbanda é manter o ambiente eletivo para os pretos e caboclos se comunicarem à vontade, na sua vivência regionalista, no seu linguajar pitoresco e truncado, plasmando-se através dos cavalos sem quaisquer constrangimentos e na sua forma característica:
| Entidade | Manifestação característica |
|---|---|
| Índios | Saúdam em grande estilo; tornam os médiuns altivos e fortes, capazes de movimentos rápidos, quase felinos, e até de saltos vigorosos. |
| Pretos velhos | São curvados, sentenciosos nos seus rifões morais, voz macia, alegres e afáveis, no linguajar característico dos velhos escravos do Brasil. |
| Caboclos | Revelam a finura própria do sertanejo brasileiro e são repentistas, afiados, espertos, sinceros e desconfiados, falando no modo original e arrevesado do interior. |
Por isso, os freqüentadores de Umbanda identificam facilmente os pais de terreiro, logo de chegada, por um gesto ou toque peculiar na pronúncia de meia dúzia de palavras ou no próprio jeito de incorporar. Já essa caracterização mais fiel dos comunicantes não poderia ocorrer junto às mesas espíritas, pois nelas são raríssimos os médiuns de transfiguração, capazes de manifestarem, com espontaneidade, a configuração exata dos desencarnados.
Como quase a totalidade dos médiuns em atividade são conscientes ou semiconscientes, qualquer coação ou advertência contensiva no exercício da mediunidade reduz-lhe a passividade mediúnica e desperta a condição anímica.
Ademais, a disciplina mediúnica junto às mesas kardecistas segue outra orientação, em que é mais importante o conteúdo e a natureza moral das mensagens dos desencarnados, do que mesmo caracterização quanto ao seu tipo ou personalidade. É da tradição espírita kardecista que os espíritos se manifestam pelo “pensamento”, cabendo aos médiuns transmitirem as idéias com o seu próprio vocabulário e não as configurações dos comunicantes!
Em face do habitual cerceamento mediúnico junto às mesas kardecistas, os desencarnados têm que se limitar ao intercâmbio mais mental e menos fenomênico; isto é, “mais idéias e menos personalidade”! Quando o médium é culto, eloqüente e prolixo, os espíritos comunicantes também são desembaraçados e intelectivos; no entanto, quando inculto ou lacônico, ele então reduz ou desfigura a individualidade do comunicante. Às vezes, ocorre o paradoxo de espíritos primários se comunicarem junto às mesas kardecistas em linguagem escorreita, bom rendilhado verbal e alto nível de idéias, porque dispõem de um médium primoroso e culto, enquanto escritores, oradores e cientistas consagrados pela história do mundo, transmitem mensagens empobrecidas e de baixo nível intelectivo através de médiuns broncos.
Os bons médiuns de mesa ampliam, sinonimizam elegantemente e até clareiam o pensamento obscuro dos comunicantes iletrados, enquanto os medíocres ensombram e contradizem os nomes famosos com que identificam as suas mensagens.
É certo também que existem médiuns psicógrafos excelentes operando na seara espírita, os quais revelam através da escrita mediúnica as características fundamentais dos comunicantes, sem necessitar da técnica tradicional do desenvolvimento nos terreiros.