Introdução
É bem fácil distinguir o médium de “mesa”, que se desenvolve sob a égide da doutrina espírita, e o médium de “terreiro”, que prefere o seu desenvolvimento pela técnica da Umbanda: no primeiro caso, trata-se de Espiritismo, e no segundo, apenas de Mediunismo. Muitos professam que o único desenvolvimento mediúnico sensato e aconselhado ainda é o que se processa no ambiente espírita, mas o fato é que não se deve apressar-se em considerações extremistas, nem julgar esta ou aquela predileção mediúnica, muito menos se achar no direito de carrear com exclusividade para a esfera espírita os acontecimentos e os fenômenos que ocorrem desde o início da humanidade, sob a égide da manifestação mediúnica.
O que mais importa na efetivação do serviço mediúnico, seja na seara espírita ou no ambiente umbandista, é saber se ele se efetua pelo amor do Cristo e inspirado pelo seu divino Evangelho!
Sob qualquer hipótese, é sempre mais elogiável o médium de “terreiro” que se integra completamente num trabalho guiado pelos preceitos evangélicos, do que o médium de “mesa” que se torna mercenário e corrompido. A prática mediúnica do Espiritismo é semelhante a uma agência de informações civis, em que é bem mais importante o assunto do seu “fichário”, do que mesmo as pessoas que o informam; a Umbanda, no entanto, é como uma agência de informações sobre assuntos militares, onde antes de tudo convém conhecer a “graduação” e identidade do informante, pois, assim como acontece realmente no mundo físico, é muito grande a diferença e a responsabilidade entre aquilo que diz o cabo e o que informa o general!
Em ambos os casos, a distinção mais relevante ainda é quanto à natureza interpretativa na manifestação mediúnica:
| Tipo | Atuação característica |
|---|---|
| Médium de “mesa” | Preocupa-se mais propriamente com a “espécie de idéias” dos seus comunicantes, num intercâmbio acentuadamente de ordem mental. |
| Médium de terreiro | Cuida principalmente de “reconhecer a identidade” do espírito que incorpora. |
Na disciplina da Umbanda existem códigos, pontos cantados e riscados, cruzamentos de linhas e demandas de falanges que operam sob a base da magia prática, caracterizando cada grupo ou individualidade que dela participe. Assim, conforme sejam determinados pontos, sinais, toques ou códigos, o médium e os freqüentadores de Umbanda deduzem das intenções, da capacidade ou da natureza e especialidade de serviço que podem ser tratados com os comunicantes.
Junto à mesa espírita, em que ainda se nota um certo individualismo de trabalho nas relações com os desencarnados, uma preleção de natureza elevada e de conteúdo sensato dispensa mesmo a assinatura ou a identidade do comunicante, que tanto pode ser um apóstolo como um “joão-ninguém”. Em face do intercâmbio mediúnico sob a égide kardecista ser predominantemente intuitivo e, portanto, menos fenomênico e mais interferência mental, só os médiuns cultos, estudiosos, de elevado critério moral e ao mesmo tempo dóceis e humildes, correspondem satisfatoriamente aos objetivos elevados do Espiritismo.
Na Umbanda é comum referir-se a “cavalos”, em vez de médiuns, como é tradicional no Espiritismo. Embora ambos os vocábulos “médium” e “cavalo” definam a mesma coisa, ou seja, intermediário de espíritos desencarnados, eles divergem no sentido de sua aplicação ou função, nos trabalhos de mesa e de terreiro.
O médium operante sob a égide do Espiritismo deve seguir atentamente as recomendações de Allan Kardec e manter o controle e a disciplina defensiva, sem abdicar de sua própria autoridade espiritual ou submeter-se docilmente às iniciativas dos desencarnados.
O médium kardecista é mais propriamente um “procurador” ou “representante” dos espíritos, mas sempre vigilante ante o perigo de fascinação ou obsessão por descuido, fanatismo ou conduta desregrada.
Mas os espíritos desencarnados que atuam em candomblés, macumbas ou atualmente em Umbanda, chamam de cavalos os seus médiuns, por que deles exigem a abdicação de personalidade, cultura, temperamento, linguagem correta e preocupação de oratória.
O médium de terreiro, como o cavalo domesticado, deve ser dócil e submisso à vontade do seu dono, sem protesto e nem negaças.
Embora possa ser culto ou excelente orador, o médium de terreiro fala arrevesado e limita-se à filosofia doméstica, miúda e popular dos pretos velhos; malgrado o seu prestígio no mundo profano, seu curso acadêmico ou graduação superior, há de ser humilde, comunicativo e tolerante, capaz de atender seriamente às solicitações mais tolas ou criticáveis.
| Tipo | Atuação característica |
|---|---|
| Médiuns de mesa | Devem manter o controle espiritual e mental, sem perder o domínio de sua individualidade, a fim de evitar a infiltração perigosa dos espíritos malfeitores. |
| Cavalos de terreiro | Obedecem cegamente às entidades que incorporam e lhes correspondem quanto à linguagem truncada, às configurações peculiares, aos cacoetes e costumes, além de fumarem, beberem cachaça, vinho ou cerveja. |
Enquanto a Umbanda aperfeiçoa a prática mediúnica no campo do fenômeno e favorece a reprodução plástica mais fiel dos espíritos através da passividade e versatilidade dos cavalos, o Espiritismo doutrina os homens para a sua libertação definitiva das formas do mundo transitório da carne. Malgrado a aparência de ambas se contradizerem, a Umbanda “ajusta o vaso” e o Espiritismo “asseia o líquido”; a Umbanda “aprimora a lâmpada” e o Espiritismo ”apura a chama!”
Enquanto o Espiritismo restringe os fenômenos mediúnicos em sua manifestação propriamente física, a Umbanda deve assegurar plena liberdade de ação dos espíritos comunicantes sobre os cavalos.
No entanto, considerando a questão sobre se o trabalho mediúnico de “mesa” é superior ao trabalho mediúnico de “terreiro”, ou vice-versa, o mais importante em ambos os casos, ainda é a qualidade espiritual daqueles que operam neste ou naquele setor de intercâmbio com os desencarnados. A presença de espíritos inferiores não depende do gênero de trabalho mediúnico, nem do tipo de doutrina espiritualista, mas exclusivamente da conduta, do critério moral dos seus componentes e adeptos.
A Umbanda, pelas características que lhe são próprias, é doutrina mais apegada aos fenômenos materiais, pois o seu principal metabolismo de vida é justamente baseado sobre as forças grosseiras da Natureza. Vale-se de arsenal que lhe constitui o culto religioso atual e lhe faz conexão com os espíritos primários da Natureza, diferenciando-se por isso do Espiritismo, cuja atividade é feita mais propriamente no plano mental. Enquanto a Umbanda opera nos desvãos nauseantes do subsolo astralino, no foco convergente das forças violentas e selváticas da criação inferior, o Espiritismo não mexe com “formigueiros” tão perigosos, pois a sua atividade no plano mental é menos acessível à investida agressiva dos magos das sombras.
Não se deve endossar o serviço mediúnico mercenário, nem a magia degradante, a superstição que algema o progresso mental, a prática primitiva que degrada o espírito ou a negociata censurável dos despachos de encruzilhadas, com que alguns astuciosos “cavalos” de Umbanda exploram os incautos e os ignorantes. Mas também não se deve louvar o médium espírita que comercia com os bens da espiritualidade, ou então vive desmentindo, na vida profana, os mesmos preceitos morais que tenta impor aos freqüentadores do centro espírita.
Ambas as doutrinas buscam a mesma Verdade, o serviço caritativo ao próximo e o movimento no sentido de o homem atual entender e assumir conscientemente a sua responsabilidade cármica gerada nas existências anteriores. Não importa por qual das correntes mediúnicas o médium venha a se desenvolver, desde que através dele consiga fazer desaparecer de sua alma as “feridas morais” que atraem as influências do astral inferior, quando então poderá prescindir de ambos os trabalhos, porque então já estará curado espiritualmente!